PVC (Paulo Vinícius Coelho)

Maracanã explica 15 mil ingressos gratuitos no fim de semana de futebol

 

O diretor de marketing do Consórcio Maracanã, Mar­celo Frazão, é um dos raros especialistas em estádios no Brasil com o diagnóstico correto sobre o público. Ele não diz que o número de torcedores diminuiu. Assume que nunca existiu. Ou melhor, que os jo­gos grandes sempre tiveram público grande e os pequenos sempre tiveram pouca gente.

Parece óbvio num país onde a média de torcedores recorde em qual­quer campeonato, em 113 anos, é de 22 mil pagantes – no Brasileirão de 1983.

Desde que assumiu a direção de marketing do consórcio, Frazão tem conversado sobre as formas de levar mais gente aos campos.

Neste final de semana, foi um abuso. Na soma do público presente em Fluminense 1×0 Grêmio e Fla­mengo 2 x 2 Santos, 94.709 torcedo­res estiveram no Maracanã. Destes, 15.118 não pagaram bilhetes – 15,9%. De cada seis torcedores torcedores, um não paga. “Importante diferen­ciar os proprietários de cativas dos beneficiários da Lei das Gratuidades do Estado do Rio”, ressalta o diretor de marketing do consórcio Maracanã, Marcelo Frazão.

No sábado, foram 4494 gratuida­des, 952 proprietários de cativas. No domingo, 7.842 gratuidades, 1830 cativas. Em Flamengo x Santos, 9600 pessoas entraram sem pagar.

Abaixo, Frazão explica as razões de tanta gente não pagar ingresso, o impacto disso e as possíveis soluções. O ingresso médio no Maracanã no fim de semana foi de R$ 46. Poderia ser bem mais barato se todo mundo pagasse. No domingo, seria oito reais mais barato com uma única solução: se todos pagassem ingressos.

PVC – Na sua opinião, qual o im­pacto do número exagerado de não pagantes no futebol brasileiro?

FRAZÃO – Há uma grande profu­são de leis dando benefícios no aces­so aos estádios, sejam gratuidades ou meia-entrada, sem o estabelecimento de limites nem de formas viáveis de controle.

O futebol profissional no Brasil, por sua popularidade e alcance, é alvo de intervenções e de subsídios sem contrapartidas a quem é obrigado a fornecer o benefício. Alguém paga essa conta. Além de clubes e operado­res de estádio, principalmente o tor­cedor honesto que não utiliza carteira de estudante falsa e paga um valor distorcido no ingresso inteiro.

PVC – Como fazer para aumentar o público pagante?

FRAZÃO – No caso do Maracanã, três medidas ampliariam nossa capa­cidade: 1. revisão da lei das gratuida­des no estado do Rio de Janeiro. A lei só existe nestes moldes no Rio, sem limites nem contrapartidas do Estado; 2. revisão do espaço destinado a tor­cidas visitantes. Tudo no Maracanã tem dimensões grandiosas incluindo os 10% destinados aos visitantes. Existe sempre um grande desperdício de ingressos que poderia ser evitado com o devido acordo entre o clube mandante e o visitante, com o aval do GEPE (Grupamento Especializa­do de Policiamento em Estádios); 3. Regularização e pagamento das anui­dades das cativas. Hoje temos mais de mil cativas não regularizadas que ficam impedidas de uso em todos os jogos. Além disso, os proprietários das cativas não pagam, por questões jurídicas, a taxa anual de manutenção que seria de R$ 500.

PVC – Por que não se pode vender a capacidade total do estádio?

FRAZÃO – O estádio é aberto seto­rialmente, de acordo com o apelo de cada partida. Quando se dá a abertura total, partimos dos 78 mil de capa­cidade total e retiramos para venda as cadeiras cativas, reserva de 20% de norte e sul para a Lei das Gratui­dades, os Camarotes, a Tribuna de Honra, os ingressos destinados aos patrocinadores do clube mandante e Maracanã, as cortesias para federa­ções e autoridades esportivas. A partir deste ano, o Regulamento Geral das Competições da CBF também obriga destinar cortesias aos patrocinadores da competição.

Firmino agora é um dos dez brasileiros mais caros da história

 

        Nem Pelé nem Romário nem Tostão, Zico ou Só­crates fazem parte dos dez mais caros negócios da história envolvendo jogadores nascidos no Brasil. A razão é óbvia. Quando Zico foi para a Udinese, em 1983, negociado por 2 milhões de dóla­res, o futebol negociava jogadores por valores muito mais baixos do que hoje.

        Os 40 milhões de euros pagos pelo Liverpool ao Hoffenheim para ficar com o atacante Firmino colocam o número 11 da seleção brasileira na nona colocação na lista das transferências de brasi­leiros. Isto considerando que Ney­mar tenha custado ao Barcelona 86 milhões de euros, como assumido pelo clube catalão ano passado — o grupo DIS cobra na Justiça espa­nhola a porcentagem equivalente a 94 milhões de euros.

        Em 1988, Romário trocou o Vasco pelo PSV Eindhoven por 6 mihões de dólares, mesmo valor da compra de Ronaldo pelo clube ho­landês seis anos mais tarde.

        Na lista dos maiores negócios de todos os tempos, Cristiano Ro­naldo ainda é o mais caro.

        Veja abaixo a lista dos brasi­leiros mais valiosos e também os campeões independentemente da nacionalidade.

 

BRASILEIROS (em euros)

1. Neymar – 86 milhões (Santos-Barcelona)

2. Kaká – 65 milhões (Milan-Real Madrid)

3. David Luiz – 61 milhões (Chelsea-PSG)

4. Ronaldo – 46 milhões (Internazionale-Real Madrid)

5. Lucas – 45 milhões (São Paulo-PSG)

6. Thiago Silva – 44 milhões (Milan-PSG)

7. Hulk – 44 milhões (Porto-Zenit)

8. Robinho – 42 milhões (Real Madrid-Manchester City)

9. Firmino – 40 milhões (Hoffenheim-Liverpool)

10. Fernandinho – 40 milhões (Shakhtar-Manchester City)

 

TODAS AS NACIONALIDADES (em euros)

1. Cristiano Ronaldo – 94 milhões Manchester United – Real Madrid (2009)

2. Gareth Bale – 91 milhões (Tottenham – Real Madrid – 2013)

3. Neymar – 86 milhões (Santos – Barcelona (2013)

4. Luis Suarez – 81 milhões (Liverpool – Barcelona – 2014)

5. James Rodriguez – 80 milhões (Monaco – Real Madrid – 2014)

6. Zidane – 75 milhões (Juventus – Real Madrid – 2001)

7. Ibrahimovic – 69 milhões (Juventus – Barcelona – 2009)

8. Kaká – 65 milhões (Milan – Real Madrid – 2009)

9. Cavani – 64 milhões (Napoli – Paris Saint-Germain -2013)

10. Figo – 61,5 milhões (Barcelona – Real Madrid – 2000)

Sacchi exclusivo: “Brasil ganharia Copa 2014 se futebol fosse individual.”

 

        Arrigo Sacchi foi o criador do maior time do Milan de todos os tempos. No final dos anos 80, foi revolucionário, por adotar a marcação por zona na rígida cultura tática italiana, por fa­zer seu time jogar no ataque e dar espetáculo e conquistar duas Ligas dos Campeões consecutivas. Nun­ca mais nenhum time conseguiu isso, nem o Barcelona de Guardio­la.

        Semana passada, Arrigo Sacchi lançou seu novo livro. Chama-se “Calcio Totale’’ e é sua autobiogra­fia. O livro, à venda nas principais livrarias da Europa nasceu geraldo polêmica, porque na entrevista de lançamento o autor disse torcer pela Juventus na Champions Lea­gue por julgar que o último título italiano, com a Internazionale de José Mourinho foi uma vergonha. “Ser campeão sem ter nem sequer um titular italiano é uma vergo­nha’’, disse Sacchi.        

        Sacchi atendeu gentilmente às perguntas deste blog por email. Respondeu sobre a polêmica dos estrangeiros, sobre seu time his­tórico e sobre as crises do futebol brasileiro e italiano. Ele não julga o Brasil em crise, mas acha que não vencerá a Copa enquanto não pra­ticar futebol mais coletivo.

 

PVC – Seu livro se chama Calcio Totale. Em que senti­do você pensa ter contribuído para sedimentar este conceito no futebol mundial?

SACCHI - Eu deixo para a crítica a tarefa de dizer como o meu tra­balho foi importante para mudar a mentalidade do futebol. Eu posso dizer que eu sempre acreditei em um futebol feito de colaboração e sinergia. Meu futebol é um futebol que é jogado com a participação de todos, com o sacrifício. Estes são os princípios em que sempre acre­ditei, que para mim é chamado de “Calcio Totale’’, futebol total.

 

PVC – O seu Milan campeão da Europa em 1989 e 1990 pode ser ranqueado de que maneira entre os times de to­dos os tempos?

SACCHI – Existem documentos que podem explicar esta ideia me­lhor do que eu. A revista “World Soccer’’ atribuiu ao meu Milan o quarto lugar no ranking dos mais grandes times de futebol de to­dos os tempos. “France Football’’ elegeu o Milan 1988-90 melhor time dos últimos 70 anos. Outros grandes jornais europeus compara­ram o meu fantástico time com os maiores de todos os tempos. Isto significa que o trabalho realizado nestes anos foi bem feito.

 

PVC – Li que você falou so­bre o excesso de estrangeiros e sobre a vergonha de a Inter ter vencido a Champions sem italianos. Qual é a medida?

SACCHI - Eu acredito que o fu­tebol deve sempre manter a iden­tidade do país em que você joga. Se você exagerar com a inclusão de jogadores estrangeiros, você acaba perdendo as características do próprio futebol, da sua cultura. Não estamos falando de um espor­te feito apenas de técnica, mas de um filosofia geral. A inteligência não tem um passaporte. Mas se ler­mos a história do futebol, os times que ganharam troféus importantes sempre tiveram uma base nacional forte, como o meu Milan, o Ajax, o Barcelona, o Liverpool.

 

PVC – A Itália caiu na fase de grupos das duas últimas Co­pas. Por que o futebol do seu país está em crise?

SACCHI - Não é por acaso que a Itália falhou os dois últimos Cam­peonatos Mundiais. Há uma teoria popular que diz que “três pistas são uma prova.’’ A Itália agora atingiu duas pistas, ainda tem uma chance. Mas este problema está relaciona­do com os demasiados estrangeiros que jogam na Série A. Então, você realmente arrisca perder a identi­dade nacional.

 

PVC – Como você vê o futebol brasileiro depois dos 7 x 1 da Alemanha?

SACCHI - Desejo para Dunga conseguir grandes resultados com a seleção brasileira, porque é um homem do futebol, um trabalhador e foi um grande campeão dentro do campo. Se o futebol fosse um esporte individual, o Brasil te­ria facilmente vencido a Copa do Mundo de 2014, porque tinha indi­vidualidades extraordinárias. Mas o futebol é um esporte de equipe e para o Brasil há um ano estava fal­tando o espírito de sacrifício, não tinha a capacidade de tirar o me­lhor de todas as individualidades. O Brasil não conseguiu desempe­nhar um “Calcio Totale’’. Por isso que não ganhou a Copa.